Mais de nove meses se passaram sobre a realização do Design Jam que acabou por ser um workshop de Serious Games, na Casa do Impacto, e o que aconteceu nos meses seguintes mudou o rumo das vidas de todos nós.

Eu pessoalmente continuei a trabalhar para manter o meu rendimento e tentei tanto quanto possível cuidar e ficar perto das pessoas que me eram mais queridas. Provavelmente este foi também o vosso caso e todos nós nos procurámos focar nos aspetos essenciais e vitais do nosso dia a dia.

Mas hoje, decidi escrever-vos do coração, e em especial para aqueles que seguiram a The Great Village, o projeto e a ideia e foram até generosos ao ponto de dedicar o seu tempo e energia a este projeto, para que fiquem a saber o que aconteceu desde então.

Em Abril, e depois de estarmos em quarentena, a minha perceção foi de que o turismo seria um dos setores mais atingidos e não iria voltar ao que conhecíamos, logo após o estado de emergência acabar. Achei mesmo que o turismo estava prestes a mudar, para sempre e talvez para melhor.

Foi nesse momento que decidi parar o projeto da The Great Village, enquanto projeto de Turismo Responsável. Simplesmente não conseguia vislumbrar um caminho no futuro próximo.

Mas à medida que o tempo foi passando e fomos experimentando novas restrições, novas liberdades e aprendemos a valorizar os pequenos e “insignificantes” aspetos das nossas vidas quotidianas, e que tivemos como garantidos por muito tempo, tornou-se evidente para mim que a pandemia era resultado do nosso estilo de vida atual.

Na pandemia, vi a oportunidade para que nós, humanidade, fizéssemos uma mudança significativa e evitássemos o “business as usual”. Eu sabia que no passado, outros, tinham sentido o mesmo que eu durante outro períodos de crise, e de fato as forças contrárias que só tinham em mente maximizar os lucros e o crescimento econômico, independentemente de tudo, sempre tinham vencido.

Recordando o que Winston Churchill disse no final da Segunda Guerra Mundial, todas as outras crises foram um desperdício, no sentido de que não as usámos para produzir a mudança significativa de que precisávamos.

Ainda assim, para mim, a crise presente parecia diferente. Nunca antes havíamos enfrentado uma ameaça tão grande à nossa sobrevivência, enquanto espécie, com as emergências climática e da biodiversidade. Por isso senti a urgência de aproveitar esta crise para fortalecermos movimentos, como o já iniciado pela Greta Thunberg e outros ativistas e levar nossas vidas para o próximo nível.

No Corona vi o “reboot” de que precisávamos, vi o que era realmente essencial à vida e vi as consequências de perpetuar o nosso atual estilo de vida. Foi também aqui que vi que o legado de uma vida, a minha em particular, não poderia ser perpetuar este estilo de vida, mas sim criar uma alternativa. Mostrar que existem alternativas e criar um caminho diferente para mim, e eventualmente para outras pessoas que o quisessem seguir.

Foi numa daquelas noites de quarentena, em que invariavelmente acordava às cinco e meia da manhã, que imaginei o homem em quarentena como se estivesse em estado de crisálida, e percebi o que nos estava  a ser pedido. A analogia que imaginei, ainda meio adormecida, pareceu-me tão inspiradora que me senti compelida a “materializá-la” num desenho que descrevia o “ciclo de vida do humano”.

 

O homem teria de se tornar no Regenerador da terra. Temos de dar mais do que tiramos, pois tirámos demasiado e por demasiado tempo.

Aquilo que vi como essencial à vida foi: um abrigo, alimento, cuidados de saúde e educação. Assim, comecei a idealizar uma forma de assegurar essas necessidades vitais.

Desde que comecei a meditar seriamente sobre isto, ficou claro para mim que morar na cidade, longe do lugar onde os alimentos são produzidos e sem as competências para os produzir seria um dos maiores problemas. Assim, teria de mudar da cidade, para um meio mais rural, onde me iria inserir numa comunidade onde pudesse adquirir essas competências.

Esse, achei eu, que seria o ponto de partida, mas aqui eu precisaria de uma casa para viver. Foi então que decidi, e depois de muita pesquisa, construir minha própria Tiny House On Wheels. Desta forma ganhava as competências básicas de construção que me permitiam construir uma casa minimalista onde pudesse morar. Competências, que pudesse depois partilhar com outros.

O caminho começava assim a surgir à minha frente…